O Jazz Brasileiro: Das Origens à Nova Geração

Se a primeira onda internacional do jazz brasileiro viajou no embalo da bossa nova, a história completa é muito mais ampla — e começa antes dela. Nos anos 1950 e 60, o samba-jazz moldado em clubes como o Beco das Garrafas, no Rio, consolidou um idioma instrumental próprio: trios como Zimbo Trio e Milton Banana Trio articulavam a síncopa do samba com a liberdade do bebop, criando uma linguagem que nunca se dissolvia no academicismo. Essa geração pioneira estabeleceu os alicerces de uma escola que combinava sofisticação harmônica com o balanço inconfundível dos ritmos brasileiros.

A virada dos 1970 escancarou o planeta. Airto Moreira e Flora Purim levaram o idioma para Weather Report e Return to Forever, mostrando que o Brasil tinha muito mais a oferecer além da bossa nova; Raul de Souza firmou sua voz ao trombone de forma inconfundível, explorando territórios do jazz-funk; Hermeto Pascoal, radical e lúdico, mostrou que tudo soa — panelas, vozes, pássaros — sem perder a sofisticação harmônica; Egberto Gismonti ampliou o campo com violões de múltiplas afinações na ECM, criando paisagens sonoras únicas. A conexão Minas–jazz se consolida com Wayne Shorter e Milton Nascimento em "Native Dancer" (1975), um marco que influenciou gerações de músicos. Na esquina eletrificada, Azymuth destilou samba, funk e teclados em alta voltagem, abrindo caminhos para o fusion brasileiro.

Nos 1980 e 90, a diáspora musical se estabelece definitivamente, especialmente nos Estados Unidos. Trio da Paz fixa uma escola de acompanhamento e improviso que se torna referência mundial; Eliane Elias reafirma o piano brasileiro no cenário internacional; Dom Um Romão difunde a percussão carioca adaptada à bateria do jazz, influenciando bateristas globalmente; Toninho Horta torna-se referência harmônica global, ponte entre Clube da Esquina e guitarristas-jazzistas de várias latitudes. Nos bastidores, arranjadores como Mario Adnet e a redescoberta de Arthur Verocai revelam o quanto o Brasil orquestral dos anos 1970 alimenta tanto o jazz contemporâneo quanto o hip hop que sampleia cordas e sopros com fome de timbres.

Chegando aos 2000 e 2010, duas frentes se cruzam: a cena de palco pequeno, que mantém o pulso vivo, e a curadoria global que redescobre o Brasil. Dos Estados Unidos ao Japão, selos especializados criam espaços de escuta para choro, samba-jazz, frevo e maracatu em versões instrumentais, enquanto uma nova geração de colecionadores e DJs redescobre raridades brasileiras. No Brasil, uma nova geração expande a paleta sonora: Lupa Santiago atualiza a guitarra no diálogo entre tradição e modernidade; Rafael Martini desenvolve o piano como veículo de mistura entre linguagens; Helio Alves projeta sua linguagem jazzística em palcos internacionais; Guinga continua levando o violão brasileiro aos palcos mundiais com sua sofisticação harmônica única; Sofia Barion, Rafael Abdalla, Edson Sant'Anna e Jorginho Neto enriquecem esse retrato de uma geração que mantém vivo o diálogo entre improviso contemporâneo e raízes nacionais profundas.

O Trio Corrente merece destaque especial, estabelecendo novo padrão de refinamento técnico e estético, dialogando diretamente com a tradição do Trio da Paz enquanto projeta linguagem própria para a cena internacional.

O que sustenta esse ecossistema é a capacidade única de hibridização. Para um roteiro de escuta histórico: comece por Moacir Santos; siga para Hermeto Pascoal, "A Música Livre de Hermeto Pascoal" (1973); visite Egberto Gismonti, "Dança das Cabeças" (1977), com sua linguagem violonística única; compare com Toninho Horta, "Terra dos Pássaros" (1979), e perceba a sofisticação harmônica mineira; entre na pista eletrificada com Azymuth, "Light as a Feather" (1979); chegando aos contemporâneos através das produções recentes de Guinga, Helio Alves, Trio Corrente e o álbum "Chamado" de Lupa Santiago, além dos projetos autorais de Sofia Barion, Rafael Abdalla, Edson Sant'Anna e Jorginho Neto.

Hoje, o jazz brasileiro não é mais uma curiosidade exótica, mas uma linguagem madura que influencia músicos de cinco continentes. Festivais dedicados ao gênero proliferam da Europa ao Japão; conservatórios incluem ritmos brasileiros em seus currículos; plataformas digitais especializadas conectam essa produção a ouvintes globais. O que começou nos clubes dos centros urbanos dos anos 1950 agora ressoa em salas de concerto de prestígio mundial, mantendo intacta sua capacidade de transformar qualquer ambiente em terreiro de encontro entre tradição e inovação. A música que aprendeu a improvisar com o corpo inteiro continua falando ao mundo — e o mundo, finalmente, aprendeu a escutar seu sotaque único.

por Rodrigo Morte

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